Deveras Prolixo

Falar pouco não é uma opção

Atraso

Corre que seu ônibus já tá parado no ponto

O último passageiro vai entrar

Corre que é a sua chance

De chegar a lugar algum 

Meaningless

Fim. Chegamos ao ponto em que começamos. Não foi como queríamos. Não foi nada do que sonhamos. O sentido se perdeu. Nós nos perdemos.

Colóquio

Eu tenho aqui comigo uma carta que escrevi para a vida que tive:

Vida, foste boa comigo. Não posso negar. Agora preciso ir, preciso andar. O sol já está se pondo e não quero me atrasar. Trago comigo um fio de cabelo de mamãe. Ela foi tudo pra mim. Encontrei esse fio no meu paletó. Vida, é a única coisa que tenho de mamãe, meu único pertence.

Pai eu não tenho, você sabe. Irmãos também não. Esposa muito menos.Eu preciso ir. Não deixo nada. Nem bens e nem pessoas.

Os livros? Os livros que a vida me deu não foram escritos no papel. Os trago comigo em um canto da minha cabeça.

Até em Deus. 

Solúvel (4/4)

Finalmente consegui dormir. Sonhei que voava e que nada podia me prender ao solo. Nem mesmo a minha própria vontade. Me concentrei o máximo possível e nada.

Quando foi que experimentei uma situação tão angustiante? Acho que nunca. Acordei cansado, muito cansado. Olhei o relógio e tinha se passado apenas uma hora.

Ah, se eu fosse solúvel! Como um problema de matemática. Deixo de existir, sou decifrado, me encontro no estado mais feliz: dissolvido.

Solúvel (3/4)

“Tudo que é sólido pode derreter”

Isso não faz sentido nenhum. Perdi uma noite pesando nisso. Talvez eu não tenha nascido para o abstrato e sim para o exato. Pensando bem, o que é exato nessa vida? Pensando bem, como eu posso definir minha existência?

Sinto tanta raiva de mim mesmo. Vai amanhecer e eu ainda não dormi…

Solúvel (2/4)

Se ao menos eu conseguisse parar de pensar. Todo dia é a mesma coisa, penso e não durmo.

Quando ela chegou eu ainda estava acordado.

– Conseguiu chegar direitinho?

Veja bem, era essa a pergunta que deveria ser feita nesse momento? Se estou em casa e não tem ninguém comigo significa que eu consegui. Essas perguntas me irritam tanto, porque as pessoas não se esforçam nem para fazer perguntas. Fiz um barulho com a boca afirmativamente. Não iria começar nenhuma conversa.

Continuei meu raciocínio e ela apagou a luz. Não dormi.

Solúvel (1/4)

– Pra onde a gente tá indo?

Bom, eu não saberia responder. Afinal de contas quem tinha organizado tudo não estava lá e um bilhete precário com apenas um endereço não ajudava.

– Não se preocupa que eu tenho o endereço.

Você já mentiu pra alguém de modo que você, na verdade, mentia para si mesmo? Eu fiz isso, porque eu estava preocupado e essa frase me acalmaria também. Essa nem era a pergunta que ela me fez. Você faz isso? Responder uma pergunta que não foi feita? Eu faço isso e chamo de divergir. Se não tem limite, diverge, é simples.

– Ontem eu bebi um drink ruim demais.

Ela tentava construir uma conversa que eu não queria participar. Eu até perguntaria o porquê do drink estar ruim, mas isso eu já sabia. Você já perguntou algo que já sabia a resposta? Eu faço isso para romper o silêncio e chamo de solução. Se é solúvel, dissolve-se, é uma solução.

Chegamos no destino.

Solar

Me perdi no meio dessa confusão

Você apareceu

Me encontrei

Prelúdio

Ai de mim se não tivesse você

Antes de você chegar me preparo

Manhã inteira

Tarde inteira

Não sei quando você vai chegar

Mas você disse que vem 

Me preparo pra te receber

 

Lux

Uma luz invade o quarto devagar.

Uma luz invade minha alma.

Uma luz que não pede licença para existir e entrar nos lugares mais remotos.

Acordo, abro os olhos e vejo a luz. Há esperança.