Deveras Prolixo

Falar pouco não é uma opção

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Rewind

Aperto o botão que diz rewind, mas o tempo continua a passar. Fiz mais um aniversário, ganhei mais uma linha de expressão e perdi mais alguns fios de cabelo.

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Inspira

Respiro com dificuldade como um asmático se recuperando de uma crise

Respiro devagar como uma criança dormindo

Inspiro coisas noivas

Inspiro velhas emoções

Expiro vontades

Expiro lembranças

Meus pulmões se enchem

Sei que estou vivo

Sem ele

Palavras deveriam ser proibidas de serem ditas. Você disse “não” primeiro, mas meu “não” tinha sido gerado desde a primeira vez que nos vimos.

Rejeitos

Achei um pensamento na sarjeta e acho que te pertence.

Ledo engano

Estou feliz que omitistes a verdade de mim. Sofro há exatamente 68 minutos. Se eu soubesse desde o início estaria espalhada por todo lado há alguns poucos meses.

Confissões

Eu escrevi um livro sobre você. Na verdade, o livro é sobre mim e você. Eu sei que a gente nunca teve nada e que você era só meu amigo, mas fiz de todas nossas correspondências uma história de amor.

Lembrei de te contar isso porque hoje eu vi seu melhor amigo e acabei me lembrando de você. Eu escrevi sobre coisas que você disse e coisas que você não disse e que eu queria que você dissesse. É um livro de fantasia.

No livro você não é vilão nem herói. Você é o cara mais ordinário do mundo e com a vida mais ordinária.

Eu te esqueci. Esqueci até que tinha escrito esse livro, mas aí eu vi seu amigo e lembrei que você foi a primeira pessoa que eu amei.

 

A doença

Não é um câncer. Não é fratura exposta. Não é aneurisma e nem infarto. Não é má formação. Não fibromialgia e nem qualquer síndrome.
A doença mental não é nenhuma dessas doenças acima e não é tratada como nenhuma das doenças acima.
A doença mental dói, isola, machuca, coça, inflama (a alma), infecciona (os pensamentos) e mata.
Uma doença que mata tem que ser tratada como as outras.

Pânico

– Alô?
– Oi! Você nunca liga. O que foi?
– Eu tô aqui deitada no chão. Acho que vou morrer, mas é um ataque de pânico.Meu coração bate forte e minha barriga tá esquisita como se eu estivesse com alguma infecção. Me sinto engraçada e doente ao mesmo tempo.
– O que eu faço? Quer que eu vá aí?
– Não. Não precisa. Vai melhorar quando eu estiver com tudo que eu preciso fazer hoje pronto e quando eu não tiver que ligar pra desmarcar meus compromissos.Enquanto isso eu vou procrastinar todo o resto que tenho que fazer.
– Isso não é bom. Eu, na verdade, não posso ir aí.
– Tudo bem.
– Desculpa. Tenta ficar bem.
E não ficou.

Vocês não sabem

 Não sabem o que sentem e nem o que estão fazendo. A ignorância mata!

Noite fria

Já era tão tarde e estava tão frio que a ponta dos dedos dormiram.

– Eu preciso só de mais uma hora.

Pensava que não havia mais nada que pudesse fazer além de se sentar e esperar que tudo se resolvesse.

– Em uma hora se ninguém aparecer eu vou embora.

A coragem, assim como o medo, estavam lá. Pensava que a única coisa que podia impedir os próximos acontecimentos seria uma intervenção divina. Não acreditava em Deus.

– Eu preciso ir agora.

Decidido em se livrar de tudo que estava sentindo resolvei que não havia mais tempo. Nem o frio que o congelava fazia  esquecer.

Não apareceu nenhum sinal,ninguém. Nada. Passaram-se horas.

Não havia mais nada. Nem dor.

 

O plano me assustava. Não pensava que haveria dor que me fizesse querer sentir mais dor e acabar com tudo.

Mas um dia veio a dor.

Aquela dor que me fez querer sentir mais dor e que fizesse tudo sumir.

Ainda tenho medo.Vou esperar até que tudo vá embora.

Alguém tem que ir embora. Talvez seja eu que tenha que ir.