Deveras Prolixo

Falar pouco não é uma opção

Categoria: continho

Amargo doce amargo

As cortinas eram brancas e tocavam o chão e o teto. Escondiam uma janela enorme com vista para um mar de morros. O espaço era amplo, com um armário que ocupava grande parte de uma parede. Fotos na parede, nos criados, uma poltrona confortável ao lado da cama. Um raio de sol persistente passava por entre as cortinas e batia no queixo dela.

Me sentei ao lado da cama e não sabia o que dizer. Minha cabeça fervilhava e eu  me lembrei da última vez que a vi. Foi naquela madrugada quando a encontrei na sala e dormi ao lado dela.

-Mãe, você lembra daquele dia que eu te dei todos os pé de moça que eu tinha? Acho que foi a primeira vez que te vi sem ser nas fotos da sala e agora eu tô vendo que o seu quarto tem as mesmas fotos.

Desculpa, mãe. Eu deveria ter vindo aqui antes, mas eu sou fraco e tinha medo de te ver assim. Eu preferia ver as suas fotos. Desculpas, mãe.

Eu parei de cantar, mas é que eu nunca ouvia nada aqui dentro e pensei que você não estava mais aqui. Queria ter vindo aqui antes, mas é que…

Mãe, eu te amo! Muitas vezes eu quis entrar aqui para te salvar. Desculpas.

Todos os dias das mães era sempre a mesma história. Eu chorava e o meu pai me levava pro shopping. Quando eu cresci parei de chorar e dormia o domingo todo. Desculpas.

Eu não acredito em Deus. Eu sempre pedia pra Tia rezar para que você saísse do quarto e me amasse, mas nunca aconteceu. Mãe, eles dizem que Deus é só amor. Eu não acredito. Você sofreu muito.

Mãe, desculpa estar chorando e te fazendo triste. É que eu queria tanto saber o que tinha acontecido com você, mas agora que eu sei me dói muito saber que você teve que fazer essa escolha.

Meu pai te ama, mas acho errado que ele te isole e não permita que outras pessoas te amem de perto. Mãe, eu sempre te amei. Eu te amo. Não vou te deixar mais sozinha aqui dentro.

***

No dia 27 de novembro minha mãe morreu. Eu fui ao quarto dela  durante 57 dias para conversar e ler para ela. Tentei comer um pé de moça naquele dia como consolo. Foi o doce mais amargo que já comi.

 

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Amargo doce amargo

Saí de casa sem rumo e com muita raiva. Corri as primeiras quadras e só parei quando percebi que não tinha ninguém atrás de mim. Eu nunca tinha feito isso antes e talvez  tenha demorado até demais para explodir.

Mais cedo naquele dia, levei um amigo do colégio para fazer um trabalho em casa. A Tia me olhou estranho.

-Eu sei, Tia. Eu sei! – disse  sem muita paciência.

Meu pai não iria gostar. Era isso que ela disse com os olhos. Desde que me entendo por gente, ele nunca deixou que eu levasse colegas em casas, na nossa casa não tinha festas, não tinha visitas além de um enfermeiro e médico que cuidavam de minha mãe. Na verdade meu pai não gostou, ele ficou irado. Nunca o tinha visto daquele jeito antes e talvez tenha sido a primeira vez que gritou comigo.

Não me lembro de muita coisa, mas lembro muito bem quando eu levantei a mão contra ele. Antecipando meu golpe ele me segurou.

-Desculpa, Marcelo. Você pode dar licença pra gente. Desculpa mesmo.

Meu amigo se foi e a Tia veio intervir.

-Ô, Tia! Não vem não. – gritei sem pensar.

– Filho, eu já te falei sobre isso. Custava seguir as regras?

-Essa é a regra mais estúpida que você inventou. Como assim? Não posso ter as pessoas aqui em casa? Qual o problema? – eu continuava gritando.

– Você sabe qual o problema e sabe que não deveria estar gritando.

– Eu não sei! Você nunca me fala nada. Eu não sou mais criança. Não tem como você me subornar com DOCE! – eu estava cada vez mais descontrolado.

Peguei um ônibus. O primeiro que passou e desci perto de um dos meus lugares favoritos. Eu aprendi a ir sozinho no parque com o PP. Ele era filho de uma Tia, mais velho do que eu e que foi meu tutor em várias disciplinas do colégio.

-Ah, não! Olha só o filhinho do papai andando sozinho a noite no parque.

Era o PP. Fiquei aliviado, mas não consegui dizer muita coisa.

– Ô, moleque. Você tá bem? Não desmaia não, cara. Fala alguma coisa.

– Eu briguei com meu pai. – chorei com uma criança.

PP me levou para a casa dele. Um sobrado simples que ficava não muito longe dali. No caminho conversamos sobre como eu estava me saindo no colégio e com as meninas. Relembramos o tempo em que nós convivemos.

– Que rapaz lindo você virou!

A Tia, mãe do PP, era doce e sorridente. Eu gostava dela, mas meu pai não deixava nenhuma Tia lá em casa por muito tempo. Eu as continuava chamando de Tia, porque era difícil lembrar os nomes.

– Tia, eu briguei com o meu pai.Eu não aguento mais aquele tanto de regra, aquele tanto de segredo.

A Tia me olhou com pena. Ela sempre me olhava assim. O PP desviava olhar de mim. Eu precisava ir embora, mas ao mesmo tempo não queria ir. Resolvi fazer algo que não fazia há muito tempo:

– Tia, você sabe o que aconteceu com a minha mãe?

 

 

Amargo doce amargo

E fez-se a luz.

– Olha, Tina! Ele sorriu pra mim.

– Ele é a coisa mais linda que eu já vi na vida!

 Nosso menino era desejado há muito  e não podíamos deixar de sorrir o tempo todo. Tina tivera alguns momentos difíceis no puerpério e a mãe dela tava sempre lá para ajudar. Agora estávamos sozinhos e desesperados, mas contentes.

Não haveria nada que pudesse nos abalar depois que enfrentamos a primeira febre e as cólicas. Nosso menino crescia e nós também.

– Podemos ter mais um se você quiser. – eu dizia sempre que ele acordava no meio da madrugada.

– Se todos forem assim eu quero mais três. É sua vez de ir até lá. – dizia com um sorriso no canto da boca. Era sempre minha vez nas madrugadas.

De todas as coisas que deixaram de existir, depois que Tina se foi, a que eu sinto mais falta é que ela confiava em mim. Mesmo quando eu tinha medo e fugia dos problemas seu olhar me atravessava e era como se ela dissesse:

-Vai! Eu confio em você.

 

Amargo doce amargo

– Você lembra quando todo dia você me dava um doce? Que doce era mesmo?

– Era pé de moça. Você amava aquele doce! – respondeu sorrindo.

Meu pai estava me visitando antes das minhas férias terminarem. Eu o levaria para uma casa de repouso depois disso. Ele não queria morar comigo e não poderia continuar sozinho em casa. A idade pesava e ele já tinha perdido parte dos movimentos da perna esquerda.

– Eu sempre queria saber o que acontecia em casa naquela época, pai. Era uma angústia tão grande que o doce que o senhor me dava passou a ser uma coisa ruim. Era amargo demais.

Ele não gostava de falar sobre esse assunto e nunca gostou. Quem me contou o que tinha acontecido foi uma Tia que viveu conosco na minha primeira infância. Era duro demais para ele lidar com a culpa e com a viuvez de uma mulher que ainda estava viva.

– Você era única coisa que me deixava vivo. – disse baixinho, tão baixo que eu quase não entendi.

Quando criança eu não suportava a ideia de não saber o que estava acontecendo. Eu tinha um milhão de teorias sobre a saúde de minha mãe e uma delas era tão absurda que eu a escrevi em uma redação do colégio. A professora chamou meu pai na escola. Eu tinha 10 anos.

Eu não ganhei nenhum doce naquele dia. Ele me buscou na escola e me colocou de castigo. Não falou nada por dias. Anos mais tarde descobri que a história não era tão absurda. Descrevi o que tinha acontecido com meus pais e todos os eventos que desencadearam o sofrimento e a dor na nossa família. Aquilo era tão complexo e obscuro que lembrando de tudo, neste exato momento, tenho a sensação de que foi tudo um pesadelo.

– Desculpa.- disse com a voz embargada e a cabeça baixa.

 

Amargo doce amargo

Alguns anos depois daquela noite e eu ainda não sabia o que se passava em casa. Até que um dia vovó veio nos visitar. Eu não conhecia a vovó pessoalmente, pelo menos não me lembrava, e só nos falávamos pelo telefone.

Vovó era uma mulher muito alta e usava um óculos preto enorme dentro de casa. Ela era estranha, não sorria e a semelhança entre a minha mãe, pelo menos a da foto da sala, era enorme.Vovó não trouxe doces e eu já não perguntava coisas que incomodavam as pessoas, ou seja, não falava mais da minha mãe.

Naquele dia eu dormi no sofá da sala e acordei com vozes vindo da cozinha. Era a minha Tia, meu pai e a vovó. Não abri os olhos e nem levantei, porque queria ouvir o que falavam e o assunto era a doença da Tina.

Eu fiquei sabendo que a minha mãe se chamava Cristina só quando uma Tia atendeu o telefone e falou que “a Dona Cristina não pode atender”.

-Tia, quem é dona Cristina?

-Foi engano, menino. Meu arroz tá queimando! – disse correndo apressada para a cozinha.

Não era engano. Era a minha mãe. Ainda fico preso nessa cena, porque meu pai proibia qualquer referência a minha mãe e ao estado dela. Eu era proibido de entrar no quarto e ter qualquer contato com ela. Eu não entendia qual era o crime o fato de uma criança querer conhecer e tocar na sua mãe.

-A Tina não melhora e o médico diz que vai ser assim o resto da vida. Ela nunca vai ser a mesma de novo.

-Não dá pra deixar o menino nessa loucura. E se ela levanta e ninguém vê?

-Dona Tina tava chorando outro dia. Foi bem na hora que ele chegou da escola e começou a cantoria.

Eu cantava todos os dias quando chegava da escola. Era o meu jeito de avisar para ela que eu tinha chegado. Passava a mão na porta e dizia baixinho: Boa tarde, mamãe! Não sabia que ela entendia e chorava.

– Talvez internar naquela casa?

-Minha nossa, o menino vai ficar doido!

Fiquei imóvel no sofá por um bom tempo. A conversa acabou, vovó entrou no quarto e meu pai saiu. A Tia veio me “acordar” e me levar para a cama.

-Tia, eu vou falar pro meu pai que eu vou ajudar a cuidar da minha mãe. Uma vez eu conversei com ela e ficou tudo bem. Não vou deixar internar.

A Tia me olhou assustada e nem brigou comigo por ter escutado a conversa. Me deu um beijo na testa e foi embora muda.

Tive um pesadelo aquela noite. Vovó veio me ver.

-Vovó, me fala que  machucado minha mãe tem? Eu gosto dela aqui e não internada. Não leva ela não.

Amargo doce amargo

Minha mãe se escondia de mim o dia todo. Vivia no quarto ou no banheiro. Minha mãe não falava, não sorria, não existia.

Eu era da Tia e sempre tive uma Tia. Ela sempre chegava antes do meu despertar e ia embora depois do meu adormecer. A Tia cozinhava e lavava.

-Tia! Por que minha mãe não quer falar comigo?

A Tia pedia para que eu fosse brincar na sala, porque cozinha não era lugar de menino. Eu passava na porta do quarto da minha mãe devagar para ouvir o que acontecia lá dentro e nada.

Meu pai chegava me gritando, rindo, me dando colo. Almoçava e jantava comigo. Sempre sorrindo. Quando olhava para o quarto o sorriso se fechava e ele desviava o olhar.

-Pai! Por que minha mãe não quer falar comigo?

Meu pai tirava um doce do bolso. Era meu doce favorito. Era um pé de moça bem grande que eu comia de uma vez.

Quando minha mãe gritava eu acordava e ouvia muitos barulhos. Fechava os olhos com força querendo dormir de novo. Naquele dia eu levantei e abri a porta. Minha mãe estava sentada na sala, olhando para o teto, no escuro, sozinha, magra que só vendo e quase sem vida. Fiquei com medo. Fazia tempo que não a via.

– Mãe! Por que todo mundo acha que sou bobo, não me respondem e me dão doce quando pergunto de você?

Minha mãe olhou para mim como se pudesse enxergar através de mim e uma lágrima caiu na sua camisola branca com girassóis bem amarelos. Corri rapidamente para o meu quarto. Voltei com todas os doces que eu tinha. Todos os doces que ganhei quando perguntava para meu pai sobre ela e eram tantos que eu não conseguia comer.

Coloquei os doces do lado dela. Sentei do outro lado e encostei nela. Ela existia e eu podia tocá-la. Não sabia o que tinha acontecido, mas sabia que ela me amava.

-Mãe! Se você quiser comer pé de moça pode pedir pra mim. Eu ganho um toda vez que falo de você. São muitos. Pé de moça faz feliz!

Dormi ao lado dela.

Interlocução

– Você fala muito alto.

-Do que você tá falando? Eu nem abri a boca.

-Desculpa, mas é que eu ouvi sua voz na minha cabeça e achei que era você me gritando.

-Tá tudo bem com você?

-Não. Não tô bem.

-O que aconteceu? Quer falar sobre isso?

-Eu não quero falar, mas quero te ouvir. Me diz o que você quer de mim?

-O que eu falava na sua cabeça?

-O que você quer de mim?

-Eu te perguntava isso?

-Não, eu que estou repetindo minha pergunta. Você nunca me responde o que eu quero saber. Meu estômago dói quando você faz isso.

-Você viu que hoje vai ser a noite mais fria do ano?

-Já é, há muito tempo.

Mapa Astral

-Diz aqui que eu me apaixonaria por você.

Aponta o dedo para a tela do computador.

-Onde? Onde você leu isso? – Nem levanta os olhos para olhar o que lhe foi apontado.

-Aqui no meu mapa astral. Olha só: O estilo de Vênus em Libra é mais sofisticado e refinado, e a atração é sentida por pessoas educadas, que sabem se portar socialmente. Há, sobretudo, uma natural atração pela beleza e pela gentileza.

-Do que você tá falando?

-Meu mapa astral. Aqui diz que eu me apaixonaria por você. Você é educada e sabe se portar socialmente.

-Minha mãe é assim e você não é apaixonada por ela.

-Você não entendeu nada. Esquece o que eu falei.

Finalmente ela levanta os olhos e olha para ele.

-Eu me apaixonei quando você disse que eu era a pessoa mais ordinária do mundo e me explicou o significado de ordinária antes que eu achasse que você tinha me ofendido. Isso não tá escrito no meu mapa astral.

Continuam se olhando.

-Eu acho que eu me apaixonaria pela sua mãe, sim.

 

 

Escuta aqui

Era noite.

-Escuta aqui. É a minha playlist offline.

Entregou para ela os fones de ouvido. Ela soltou o livro que estava lendo a contragosto e os colocou.

-Não gosto de Jazz! Já te falei isso umas trocentas vezes.

Ela já tinha dito outras trocentas vezes que não gostava dele, mas não saía de sua casa. Não custava nada tentar.

-Toma aqui, eu não quero ouvir isso.

Devolveu os fones e resmungou alguma coisa. Voltou a ler o livro,mas não conseguia mais se concentrar.

– O que você gosta de ouvir?

A primeira pergunta que ele fez quando a conheceu volta a tona.

-Você sabe do que eu gosto. Nada mudou.

Ficou quieto. Não parecia uma boa hora para conversar. Colocou os fones e começou a ouvir a playlist.

Era madrugada.

-Eu tenho que ir.

Soltou o livro e levantou devagar. Abriu a mochila que estava em uma cadeira da sala. Sacou o telefone e seus fones lá de dentro e entregou para ele.

-Escuta aqui! É disso que eu gosto.

Trocou os fones. Era mais do mesmo como ela tinha dito. Nada tinha mudado.

Ela partiu sem se despedir.

#5

Maria pensava em Tico.

Pensava se ele estava bem e se tinha aprendido alguma coisa com aquilo tudo. Maria pensava que tinha aprendido, mas na verdade não queria saber.

Uma vez terminado era o fim para sempre no coração de Maria.

Se surpreendeu com a sua própria determinação. Não sabia mais nada sobre Tico e não queria saber.

Em pouco tempo sua vida mudou e tudo tornava mais embaçado o passado. Maria mudou de cidade, mudou de casa, mudou de emprego, mudou de vez.

Foi Tico que te fez mudar? – questionavam os que não entendiam Maria.

Tico não mudou Maria.

Maria era mais. Maria mudou porque queria mudar.