Deveras Prolixo

Falar pouco não é uma opção

Categoria: beda

Fim

Se me dissessem que hoje acabaria meu sofrimento

Me jogaria no chão em prantos.

Como pode meu interlocutor

Anunciar sem nenhum ensaio

Que hoje é o dia de minha morte?

Ad hominem

A culpa é toda sua. Se chegamos aqui nesse momento de querela é por conta de sua natureza ardil.

Se brigamos todos os dias por pequenas coisas é por conta do seu egoísmo.

Se perdemos tudo que construímos é por conta do seu descontrole.

Se minha cabeça dói o tempo todo é por conta do seu caráter.

A culpa é sua. Nunca foi minha. Você não merece amor.

obsessão

o tempo todo vivo, penso e respiro: você.

Atraso

Corre que seu ônibus já tá parado no ponto

O último passageiro vai entrar

Corre que é a sua chance

De chegar a lugar algum 

Meaningless

Fim. Chegamos ao ponto em que começamos. Não foi como queríamos. Não foi nada do que sonhamos. O sentido se perdeu. Nós nos perdemos.

Colóquio

Eu tenho aqui comigo uma carta que escrevi para a vida que tive:

Vida, foste boa comigo. Não posso negar. Agora preciso ir, preciso andar. O sol já está se pondo e não quero me atrasar. Trago comigo um fio de cabelo de mamãe. Ela foi tudo pra mim. Encontrei esse fio no meu paletó. Vida, é a única coisa que tenho de mamãe, meu único pertence.

Pai eu não tenho, você sabe. Irmãos também não. Esposa muito menos.Eu preciso ir. Não deixo nada. Nem bens e nem pessoas.

Os livros? Os livros que a vida me deu não foram escritos no papel. Os trago comigo em um canto da minha cabeça.

Até em Deus. 

Solúvel (4/4)

Finalmente consegui dormir. Sonhei que voava e que nada podia me prender ao solo. Nem mesmo a minha própria vontade. Me concentrei o máximo possível e nada.

Quando foi que experimentei uma situação tão angustiante? Acho que nunca. Acordei cansado, muito cansado. Olhei o relógio e tinha se passado apenas uma hora.

Ah, se eu fosse solúvel! Como um problema de matemática. Deixo de existir, sou decifrado, me encontro no estado mais feliz: dissolvido.

Solúvel (3/4)

“Tudo que é sólido pode derreter”

Isso não faz sentido nenhum. Perdi uma noite pesando nisso. Talvez eu não tenha nascido para o abstrato e sim para o exato. Pensando bem, o que é exato nessa vida? Pensando bem, como eu posso definir minha existência?

Sinto tanta raiva de mim mesmo. Vai amanhecer e eu ainda não dormi…

Solúvel (2/4)

Se ao menos eu conseguisse parar de pensar. Todo dia é a mesma coisa, penso e não durmo.

Quando ela chegou eu ainda estava acordado.

– Conseguiu chegar direitinho?

Veja bem, era essa a pergunta que deveria ser feita nesse momento? Se estou em casa e não tem ninguém comigo significa que eu consegui. Essas perguntas me irritam tanto, porque as pessoas não se esforçam nem para fazer perguntas. Fiz um barulho com a boca afirmativamente. Não iria começar nenhuma conversa.

Continuei meu raciocínio e ela apagou a luz. Não dormi.

Solúvel (1/4)

– Pra onde a gente tá indo?

Bom, eu não saberia responder. Afinal de contas quem tinha organizado tudo não estava lá e um bilhete precário com apenas um endereço não ajudava.

– Não se preocupa que eu tenho o endereço.

Você já mentiu pra alguém de modo que você, na verdade, mentia para si mesmo? Eu fiz isso, porque eu estava preocupado e essa frase me acalmaria também. Essa nem era a pergunta que ela me fez. Você faz isso? Responder uma pergunta que não foi feita? Eu faço isso e chamo de divergir. Se não tem limite, diverge, é simples.

– Ontem eu bebi um drink ruim demais.

Ela tentava construir uma conversa que eu não queria participar. Eu até perguntaria o porquê do drink estar ruim, mas isso eu já sabia. Você já perguntou algo que já sabia a resposta? Eu faço isso para romper o silêncio e chamo de solução. Se é solúvel, dissolve-se, é uma solução.

Chegamos no destino.